Chegou a Kickoff: a primeira escola de futebol americano de Porto Alegre

Paulo de Tarso ensina rookies os fundamentos do esporte. Foto Marco Quintana/Jornal do Comércio

O futebol americano no Brasil cresce de forma exponencial. Já estamos no terceiro boom do esporte em solo tupiniquim. Sim, o terceiro grande desenvolvimento. Pouca gente sabe, mas o jogo da bola oval é praticado há três décadas no País. Tudo começou em 1986, nas praias do Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul, iniciou vinte anos mais tarde com a fundação do Porto Alegre Pumpkins. De lá para cá, mais de 20 equipes se formaram no Estado, onde são cerca de 900 jogadores por todos os cantos do pampa. Para fomentar a atividade yankee, aumentar sua popularidade e auxiliar a concepção de futuros atletas chega a primeira escolinha da modalidade na capital gaúcha: a Kickoff.



Com o viés pioneiro no Sul do Brasil, o educador físico Paulo de Tarso Pillar, de 28 anos, ex-atleta do Porto Alegre Bulls e Porto Alegre Pumpkins, ex-head coach dos Bulls e do Restinga Redskulls, desenvolveu a primeira empresa voltada exclusivamente para o ensino do futebol americano às crianças e jovens. Kickoff é pontapé em inglês. É a jogada inicial, quando o jogo começa oficialmente. O pontapé é tão inédito no Brasil, que há somente mais duas escolinhas não vinculadas a equipes – uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. As demais “escolinhas” são consideradas como categorias de base, mesmo assim, são um número pequeno em todo o território nacional.

Com um capital baixo, pouca estrutura para a prática do desporto favorito da terra do Uncle Sam, mas muita vontade, Pillar botou em campo a aspiração de encarar este nicho. O esporte importado dos Estados Unidos caiu no gosto dos brasileiros; os últimos levantamentos de consumo mostram o aumento pela procura da National Football League (NFL) – o principal campeonato nos Estados Unidos –, tanto que o crescimento de audiência na ESPN aumentou mais de 800%. Segundo dados do Ibope, a média de público da temporada 2013/2014 da NFL foi de 123 mil pessoas por jogo, contra 53 mil da anterior. O canal exibiu 92 partidas na temporada retrasada e chegou a 114 na passada e na atual 2015/2016. A última final do campeonato gaúcho de 2016 levou 12.066 espectadores ao Beira-Rio para ver o Gigante Bowl entre Santa Maria Soldiers e Juventude. A vontade passou de somente ver pela televisão, mas para jogar de verdade.

— Dentro do aspecto que eu estava vendo nos times, percebi que as crianças que eram interessadas no futebol americano não eram contempladas. As equipes não tinham braço para isso: pegar estas crianças pós-Gigante Bowl — diz.

A visão violenta é costumeira entre as pessoas que não conhecem a fundo o futebol americano. A dissociação de pancadaria é uma das metas do treinador para convencer os pais a trazer mais adeptos.

— Através do flag football é uma maneira prática e simples para o jovem iniciar no futebol americano e saber os fundamentos do esporte — comenta.

O flag football é uma modalidade do futebol americano sem o uso dos principais equipamentos de proteção: o capacete e a armadura para ombros, peito e costas.

— No Rio Grande do Sul temos a dificuldade de criar produtos novos, mas quando ele tem qualidade, ele é bem aceito. A maior dificuldade é que as pessoas não conhecem o esporte, acham que o futebol americano é violento, principalmente as crianças. Eles correlacionam muito rápido o futebol americano com violência e ainda não vinculam com aprendizado — explica.

A formação de cidadãos

A Kickoff quer formar bons cidadãos
A Kickoff quer formar bons cidadãos

Nos lugares onde o esporte é mais desenvolvido, o flag football é usado para iniciar os menores nos fundamentos. O contato é extremamente reduzido, o que minimiza o risco de lesões, para alívio dos pais.

— Através do flag mostramos que as crianças terão praticamente zero contato. Elas vão muito mais se divertir e praticar uma atividade física do que se bater. O respeito que se tem entre os colegas facilita o aprendizado. Por exemplo: crianças com uma baixa auto-estima ou acima do peso vão praticar uma atividade muito legal e não vão reparar que ficaram uma hora e meia correndo e gastando energia. O futebol americano é muito democrático, todo mundo pode jogar: o gordo, o magro, o alto, o baixo, etc. — esclarece.

O futebol americano nos Estados Unidos e Canadá também é conhecido por desempenhar um papel social e educacional muito forte. Paulo quer seguir com esta filosofia aqui em Porto Alegre. Um dos objetivos é dar uma oportunidade para os alunos buscarem uma bolsa de estudos no exterior.

— Com certeza uma criança que sair da Kickoff vai poder jogar em qualquer lugar do mundo, sabendo os fundamentos básicos que são universais no esporte. Um chinês pratica o futebol americano da mesma forma como um americano joga. Ao longo do tempo, a gente vai tentar repassar estas crianças a uma bolsa de estudos numa escola ou universidade. Mas, caso não der, se saírem como ótimas cidadãs é o essencial. Saberem conviver em grupo, a ética de um trabalho bacana e que se esforçarem eles vão conseguir — fala.

A dificuldade do câmbio

Com a crise econômica vivenciada no Brasil e a moeda americana na casa dos R$ 3,20, aumenta a dificuldade para a aquisição de equipamentos específicos, como: equipamentos de proteção, as bandeirinhas, as almofadas de impacto ou bolas. Pillar conta com um contato nos Estados Unidos para facilitar a compra dos itens e contornar o elevado câmbio.

— Todo o investimento saiu do meu bolso, tanto para as flags e as bolas. A gente vai estar melhor equipado daqui a algum tempo. No mês que vem terá muita coisa chegando. Eu tenho um ex-atleta que mora nos Estados Unidos. Ele faz essa ida e volta de Miami para cá. Só um pacote com seis bolas que comprei saíram por US$ 35. Aqui não sairia por menos de R$ 480, talvez R$ 500 — conta.

Um dos planos da empresa é sempre estar no limite tecnológico. A Kickoff adquiriu e uma bola especial da Wilson Sporting Goods – a mesma empresa que fornece este material para a NFL – a Wilson X, que é voltada para melhorar o desempenho de uma posição primordial do time de ataque: o quarterback. A pelota oval terá um chip para captar os dados como: distância percorrida, número de rotações, eficiência da trajetória e se ela foi pega ou não pelo recebedor. Os dados são enviados ao app através do sistema bluethooth, que conectados a um dispositivo móvel, informam ao usuário os movimentos da X. Essas informações podem ser compartilhadas em plataformas de mídia social, além de serem comparadas com registros de outros jogadores.
A Wilson X custará em média US$ 200. A bola contém uma bateria que dura cerca de 500 horas.

— A gente vai tentar trazer tudo o que tiver de mais moderno para o futebol americano às crianças. Está chegando um material de treinamento para quarterbacks. São três alvos que formam basicamente um gol. A X também está chegando. É caro, mas é um investimento. Com isso, poderei averiguar melhor e testar onde as crianças estão errando, acertando, ou o que tem de aperfeiçoar — expõe.

Ainda não é o sustento primário

Mesmo com pouco tempo de atividade, o técnico e jovem empresário quer transformar a Kickoff na sua principal fonte de renda. Ainda não consegue tirar o seu sustento primário, porém, a meta é ambiciosa.

— Acho que se a gente juntar aquilo que a gente gosta, com aquilo que nos dá dinheiro, eu acho que é fantástico. Conseguir juntar o futebol americano com o que eu adoro fazer e auxiliar as crianças seria fantástico. A ideia é que mais além a gente consiga expandir para mais turmas. Quero ficar aqui na PUCRS por muito tempo, porque a parceria é muito boa — pronuncia.

A estreia das atividades foi na semana passada. Atualmente a escolinha conta com três alunos matriculados regularmente. As chuvas atrapalharam uma maior procura no arranque. A promessa é que este número seja ampliado para dez para a semana que vem.

— Assim que saírem os horários novos terá muito mais gente, pois a procura é muito maior no período da tarde do que na manhã — finaliza.

Para os interessados, a mensalidade custa R$ 180 para pessoas vinculadas a Comunidade Marista e R$ 200 para os demais. Estão aptos a participar crianças e jovens dos 9 aos 17 anos. Para maiores informações entre em contato pelo email escoladefutebolamericano@gmail.com ou pelo telefone (51) 9850 2928.

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