Direto de Iowa, Alencar manda o recado: “o Curitiba Silverhawks está no caminho certo”

A quarterback do Curitiba Silverhawks em um jogo do Iowa Crush. Foto Crush/Divulgação

A primeira edição do campeonato paranaense está perto de dar o seu kickoff, um marco na história do futebol americano jogado no Brasil. Mas é nos Estados Unidos que uma das atletas do Curitiba Silverhawks – uma das participantes da competição – brilha no momento. O Futebol Americano Brasil entrou em contato com Ester Biss de Alencar para conhecer um pouco mais do perfil da jogadora para mostrar a evolução do esporte em solo nacional.

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A atleta de Curitiba conheceu o futebol americano quando tinha 11 anos e por influência do irmão mais velho, que chegou a jogar na formação do Curitiba Brown Spiders full pads em 2008. Anos mais tarde, aos 17 anos, Alencar ajudou a formar o Curitiba Guardian Angels – braço feminino do Curitiba Guardian Saints. Depois junto com o Curitiba Brown Spiders feminino, fundou que seria a base para a construção das Silverhawks.

Atualmente, a brasileira atua pelo Iowa Crush, uma equipe amadora nos Estados Unidos e que compete na Independent Women’s Football League (IWFL). A oportunidade surgiu quando a jogadora aproveitou o momento para conhecer os programas de futebol durante o seu intercâmbio.

Durante a conversa, Alencar mandou o recado sobre o diferencial técnico e organização entre os programas brasileiros e americanos.

— Não é porque elas estão aqui nos Estados Unidos que tudo acontece mais fácil e coisas do gênero. As Silverhawks estão no caminho certo. Consequentemente elas não estão tão longe no aspecto tático — disse.

Confira abaixo a conversa na íntegra

Futebol Americano Brasil – Como iniciou a tua carreira no futebol e o interesse no esporte – já que ainda vivemos uma cultura muito machista neste quesito?

Ester Biss de Alencar – Eu conheci o futebol americano quando eu tinha 11 anos. Sempre fui muito parecida com o meu irmão mais velho e sempre quis fazer as coisas que ele fazia. Sou muito uma versão feminina dele e coisas assim. Enfim, em 2007 ele começou a acompanhar a NFL, em um intercambio para o Canadá. Viu jogos lá e voltou muito empolgado nesse sentido. Em 2008, ele começou a jogar no Curitiba Brown Spiders, um pouco antes do primeiro jogo full pads [contra o Barigui Crocodiles]. Ele não jogou naquela partida porque tinha pouco tempo de time e nem equipamento ainda tinha, na época vinha de barco ou sei lá, o que demorava. Enfim, nessa fase eu estava em todos os treinos dele, treinava em casa com ele para ajudar, então lançava a bola para ele fazer rotas ou corria as rotas para ele lançar. Nós jogávamos juntos num campo improvisado que fizemos com cal no quintal que tínhamos em casa. Desde esse tempo eu já adorava football, não entendia absolutamente nada, mas realmente gostava. Lembro de pensar em talvez querer jogar, mas nem levava para frente, afinal não tinha football feminino e as meninas que jogavam pareciam homens, na verdade. Eu fui começar a jogar quando estava com 17 anos. Encontrei um time feminino em Curitiba e abracei, desde então estamos aí.

FABR – O futebol feminino levou muito tempo para sair da fase embrionária no Brasil. Tens como tu listar os maiores obstáculos que tu encaraste para poder jogar?

Alencar – O futebol americano é o esporte mais coletivo de todos. Então minha maior dificuldade estava nisso: em ter pessoas suficientes e dedicadas pra realmente desenvolver um bom trabalho. Quando comecei a jogar nosso time se chamava Guardian Angels. Mas depois de um tempo, a comissão técnica saiu, as atletas começaram a largar e sobrou eu e mais duas meninas. Uma delas assumiu a presidência e eu como coach, e éramos basicamente nós. Quando juntamos com um grupo de outras mulheres que estavam começando a treinar, como Brown Spiders feminino, viramos em cinco ou seis, e por muito tempo foi isso. Essa era a parte mais difícil, ainda hoje é: encontrar mulheres que queiram verdadeiramente se comprometer com o football. Hoje, as Silverhawks estão em proporções gigantescas, a diferença é absurda. Ainda sim, esse é um fator muito presente. Eu acredito que os nossos obstáculos não sejam tão diferentes daqueles que os times masculinos tinham em 2008 e 2009. Diria que estamos nessa fase de desenvolvimento. Claro que temos adicionado a isso o fato de sermos mulheres e de ser um dos esportes mais físicos de todos. Eu particularmente nunca sofri resistência nenhuma quanto a isso, mas não posso fingir que minhas atletas não passaram por essa situação. Várias passam pela situação de ter um companheiro que não apoia e que não quer que elas joguem, ou pais que consideram violento demais e coisas assim.

FABR – Como pintou a oportunidade de jogar pelo Iowa Crush?

Alencar – Estou nos Estados Unidos em um intercambio. Vim passar seis meses aqui pra conhecer e vivenciar o país. Nesse período, dois meses são no Iowa. Quando eu estava no Brasil e meus host parents explicaram o roteiro, comentando do meu período no Iowa, primeira coisa que fiz foi procurar um time feminino por aqui. Encontrei o Iowa Crush, mas os times aqui, de forma geral, têm uma relação bem ruim com redes sociais, não são muito fortes no que se diz respeito a se promover enquanto equipe, então, na verdade, eu não sabia praticamente nada delas. Quando cheguei no Iowa, e estava morando na cidade ao lado de onde elas treinam, entrei em contato com a página do time pra assistir um treino e coisas assim. Depois disso comecei a ter contato com a head coach [Nancy Javaux], e durante uma das nossas conversas ela me convidou pra jogar a partida em casa, que seria em menos de dez dias. Conversei com minha família aqui e no Brasil para avisar, pois, sabemos dos riscos de uma lesão, ainda mais estando em outro pais. Tive cinco dias pra aprender o playbook, voltar a fazer rotas e passes e ficar pronta para o jogo. A treinadora e duas atletas delas me ajudaram nessa semana pré-jogo para que eu tentasse deixar as jogadas o mais automático possível na minha cabeça. Não foi nada absurdo. Como quarterback estou acostumada a estudar muito, então assimilei as coisas rapidamente.

FABR – Tu atuaste somente como signal caller ou chegou a dobrar de posição?

Alencar – Eu joguei como wide receiver praticamente o tempo inteiro, entrei como quarterback no último quarto, após a última interceptação da quarterback do time.

FABR – E como foi esta experiência?

Alencar – Antes de tudo, é importante destacar que meu objetivo no meu intercambio não era o futebol americano. Sabia que de uma forma ou outra isso apareceria no meio, afinal estou na terra desse esporte, mas nunca foi uma finalidade. Então, ter essa experiencia que eu nunca planejei foi muito gratificante. Eu imaginava que seria reserva e entraria para substituir as meninas quando elas estivessem cansadas e coisas do gênero, elas não têm muitas atletas. Mas na verdade fui starter, revezando entre slot e wideout. Foi uma experiencia incrível, pude perceber que agreguei muito ao time completando a primeira linha do ataque, isso me deixou feliz demais. Entrei como QB no fim do jogo para tentar fazer alguma coisa. Já estava 19 a 0 para a Tulsa Threat, mas queríamos tirar esse zero do placar. Quando a coach olhou para mim e perguntou, se sentia confortável para entrar de QB. Eu fiquei muito dividida. Não queria tirar a quarterback delas após uma interceptação, porque sei como isso pesa e estava um pouco apreensiva, afinal, não treino decentemente como QB desde que nossa offseason no Brasil começou, mas ao mesmo tempo não podia perder essa chance, então fiquei a disposição. Quando eu estava aquecendo o braço na sideline, estava me sentindo desconfortável, shoulder muito diferente do meu e coisas assim, os passes saindo zoados, mas de boas. A defesa recuperou a bola e a gente entrou em campo. Meu primeiro drive não foi nada expressivo, não ficamos muito tempo em campo. Mas, no segundo as coisas foram diferentes, chegamos na primeira para o touchdown e estávamos indo muito bem, mas perdemos várias jardas em faltas e acabamos não pontuando. Eu fiquei muito feliz com meu desempenho, vários passes completos e leituras bem boas de um playbook que tive pouco contato. Enfim, foi um jogo intenso e apertado apesar do placar ter as três posses de diferença.

FABR – O que tu podes trazer do Crush para ser adaptado nos programas de futebol de Curitiba?

Alencar – Olha, a verdade é que o que eu levo de mais forte é como o trabalho que fazemos no Silverhawks está no caminho correto. Somos extremamente organizadas, temos uma comissão técnica mais complete e até mais atletas. Não é porque elas estão aqui nos Estados Unidos que tudo acontece mais fácil e coisas do gênero sabe. A head coach delas [Crush] manja demais, mas ela está praticamente sozinha como coach. É bem difícil fazer isso. Além disso, nem todas as atletas do time tem a mesma mentalidade de querer ser um time competitivo forte. Consequentemente, elas não estão tão longe no aspecto tático, por exemplo. Elas são mais atléticas aqui, o que eleva o nível do jogo, mas no restante estamos caminhando bem próximas. Com certeza tem outros times aqui em que a realidade é diferente, mas ainda não tive a oportunidade de conhecer outros programas.

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