Oito jogos e 18,5 mil km: a complicada logística do Botafogo Challengers

Nove jogos, oito como visitantes e 18,5 mil quilômetros percorridos. Foto Paulo Pinto/Fotos Publicas

Eu já escrevi isso aqui – e no Pro Football – algumas vezes: “o futebol americano no Brasil cresce exponencialmente”. Tive a felicidade de poder levantar dados e relatar que o esporte da terra do Tio Sam é o terceiro mais consumido entre os gaúchos. Pude ver in loco o maior público da temporada 2016 até o momento: o Gigante Bowl, que levou 12.066 fãs ao estádio Beira-Rio, na gélida Porto Alegre – aquela noite fez 8ºC, e considero o Bowl mais frio de todos os tempos. Relatei a união das equipes do extinto Torneio Touchdown com a Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA). Finalmente um campeonato unificado. Um único campeão brasileiro. Vejo quase todos os dias a criação de equipes por todo o território nacional. É bom ver tudo isso.

Mas, não vim aqui para contar uma notícia boa. Na verdade, ela é péssima. E no meu papel de jornalista, eu tive de averiguar e contar aos fãs um lado chato do futebol americano jogado por brasileiros.

A temporada 2016 também teve o seu lado sombrio. Desistências.

Confira a classificação da Superliga Nacional

Quando uma luz no horizonte brilhava após o anúncio do presidente da CBFA, Guto Sousa, em dizer que a divisão de elite do campeonato brasileiro contaria com 32 clubes, os brasileiros tiveram um gostinho de se aproximar ainda mais da NFL. Igualávamos o sonho americano em número de participantes. O formato lembrava o certame yankee: quatro conferências, divididas em dois grupos cada. A classificação aos playoffs se assemelhava: campeões de divisões e melhores campanhas. Parecia lindo.

Pena que ficou só no papel.

Antes mesmo de a competição iniciar, problemas financeiros surgiram a tona. Não que os dirigentes não sabiam, mas que os fãs não tinham conhecimento. Ficou claro que jogar no Brasil não é fácil. Um país continental não suporta um torneio desta magnitude – pelo menos, não ainda.

A primeira vítima da crise financeira que assola os brasileiros foi o Jaraguá Breakers. Equipe catarinense campeã invicta do Torneio Touchdown de 2012. Equipe liderada pelo treinador Dennis Prants e referência de gestão no Sul do País. Problemas internos e não renovações de contratos de patrocinadores levaram aos quebradores a não jogar a Superliga. Isso que os Breakers não jogaram o campeonato catarinense no primeiro semestre. O caixa não aguentaria os custos de logística que a primeira divisão exige. Decisão final: não jogar. Primeira baixa e readequação das regras para a Conferência Sul.

Em um ano de hiato de competições, hoje os Breakers remodelam o elenco e buscam alternativas para voltar as competições em 2017.

A segunda veio logo em seguida, o Sergipe Redentores. Sergipe não é um estado economicamente forte. O futebol americano ainda engatinha por aquelas bandas. Os Redentores surgiram da fusão das equipes Sergipe Bravos e Aracaju Imortais. E mesmo sendo bravos e imortais, o time sucumbiu antes mesmo de jogar. E novamente, a mesma razão: financeira. Segunda baixa e readequação das regras para a Conferência Nordeste.

Assim como no caso dos catarinenses, os sergipanos estão buscando alternativas para manter a existência do clube.

As coisas já não andavam bem, quando o Pro Football e Futebol Americano Brasil apresentou o cenário desolador de clube capixaba após a extinção do TTD. Os Cabritos por pouco não tomaram a mesma atitude dos catarinenses e sergipanos. Com problemas no caixa acumulados de edições anteriores, troca na presidência e resultados que não apareceram em campo, o time alvinegro chegou a ameaçar sua entrada na primeira divisão brasileira, como contou o presidente do time Valter Furtado.

Só que as abdicações não terminavam por aí. A última foi durante o campeonato. O Botafogo Challengers não suportou as enormes despesas e anunciou a desistência da Superliga. A ação afetou os times da Conferência Leste e decretou o rebaixamento automático da equipe de Ribeirão Preto à Liga Nacional.

— Infelizmente estamos passando por um mal momento. E afeta não só um setor do time. Os principais problemas são: dinheiro ou a falta dele; falta de patrocínio e apoio; apesar de todo nosso esforço. Hoje dependemos 100% da mensalidade dos atletas. O que não cobre nossas despesas como, manutenção e aquisição de equipamentos, viagens, treinadores, uniformes, etc. — contou o presidente dos Challengers, Matheus Tremeskin.

Porém, não é somente a crise financeira que derrubou o clube do interior de São Paulo. A criação de novas agremiações na região gerou uma carência de reposição de atletas no elenco principal.

— Outro imbróglio que enfrentamos é a falta de material humano. Hoje nosso elenco é composto por 70% de novatos, que entraram na última seletiva e ainda assim temos um plantel drasticamente reduzido levando em consideração nossa melhor fase, 2013/2014. Isso é algo que sem dúvida reflete em nosso desempenho dentro de campo. Hoje também existem outros times, por ora de menos expressão, na nossa cidade e região, e muitos atletas preferem jogar nesses times, onde o compromisso e as responsabilidades ainda são menores”, explicou.

O dirigente procurou outras maneiras de continuar no certame, mas as dificuldades aumentavam e a diretoria dos desafiadores optou pela medida drástica.

— Não foi uma decisão fácil de tomar e não tomei sozinho, nossa diretoria é compartilhada e discutimos muito, buscamos ferramentas e estratégias para que não fosse necessário, mas avaliamos e o melhor a se fazer foi deixar a disputa da Superliga Nacional. Não tínhamos como arcar com as despesas de viagem, alguns de nossos atletas como disse, deixaram a equipe por times da região, então, para evitar um mal maior, nos retiramos. Agora estamos encarando o cenário como um recomendo. Faremos uma nova seletiva no próximo dia 10 [de outubro]. Estamos nos organizando administrativamente para a próxima temporada. Arrumando a casa Um passo atrás, prudente, para termos fôlego e trabalhar — disse.

O início de 2016 parecia promissor para os Challengers, ainda mais com a conquista do vice-campeonato da II Copa America de Fútbol Americano, que foi realizada em Huixquilucan, no México. Perguntado se as finanças do clube foram afetadas pela longa logística até a América do Norte, Tremeschin foi bem enfático.

— Na verdade não, porque nada foi custeado o pelo time. Os atletas que foram arcaram com todas as despesas. Digamos que foi um evento isolado — afirmou.

Na volta a São Paulo, o cenário de racha político não favorecia a equipe na disputa da Copa São Paulo, que é organizada pela Federação Paulista de Futebol Americano (Fefasp). O horizonte apresentava a não realização do estadual. Com alguns participantes descontentes com a gerência da competição, oito times optaram por organizar um torneio a parte. Os Challengers seguiram com o São Paulo Storm, Corinthians Steamrollers, Santos Tsunami, Palmeiras Locomotives, São Caetano Blue Birds, Lusa Lions e Ponte Preta Gorilas na criação da São Paulo Football League (SPFL).

Com o novo modelo de campeonato ficou acertado que o time de Ribeirão Preto faria todas as três partidas da temporada regular como visitante. Ao todo, foram duas viagens para São Paulo e uma para Santos, o que afetou diretamente a debilitada situação econômica dos Challengers.

— Seria melhor se tivéssemos mandado algum jogo aqui, na minha opinião. Na SPFL tudo é repartido igualitariamente entre as equipes, custos, bilheteria, etc. Mas não os custos de viagem. E pelo menos um de nossos jogos, o contra o Lusa [Lions] a bilheteria foi muito ruim. Mas foi uma escolha nossa, em algum momento pensamos que jogar na capital pudesse ser vantajoso por conta do público potencial. Mas apesar de tudo, penso que o formato que a SPFL trabalha é acertado — finalizou.

Neste ano, o Botafogo Challengers jogou nove partidas de fevereiro a julho, onde quatro delas no México, três como visitantes na SPFL, uma como mandante e uma como visitante na Superliga. Durante este período o time viajou cerca de 18,5 mil quilômetros. E poderia viajar mais 3,1 mil km se jogasse até o final do ano – levando-se em conta sem classificação aos playoffs do campeonato brasileiro.

Num cenário ideal, caso o time conseguisse levar as competições até o final, Tremeschin calculou que seria por volta de R$ 17 mil para sanar os custos de logística: dois jogos como mandante e outras duas viagens. Seriam R$ 9 mil para viajar a Vila Velha, R$ 5 mil para Belo Horizonte e R$ 1,5 mil para cada partida em casa.

Vale ressaltar que o Botafogo Challengers é um ex-integrante do Torneio Touchdown, que dava um incentivo de R$ 20 mil por participação e mais o pagamento de custos de concretização das partidas, tais como ambulância, árbitros e equipe de publicação do minuto-a-minuto para o site do Torneio Touchdown. Custos estes que poderiam elevar a quantia próxima da casa dos R$ 40 mil por time.

Confira como foi o ano de “visitante” do Botafogo Challengers

Copa America

1º a 6/fev – Heróico Cuerpo de Bomberos Arena (México) 8-12 Botafogo Challengers (Huixquilucan/México)
Selecionado do Peru 9-7 Botafogo Challengers (Huixquilucan/México)
Yaks FC (Colômbia) 20-6 Botafogo Challengers (Huixquilucan/México)
Belo Horizonte Get Eagles 13-0 Botafogo Challengers (Huixquilucan/México)

SPFL

22/mai – Santos Tsunami 25-6 Botafogo Challengers (CT Meninos da Vila/Santos)
29/mai – Lusa Lions 56-6 Botafogo Challengers (Canindé/São Paulo)
11/jun – Botafogo Challengers* 25-6 Palmeiras Locomotives (Nicolau Alayon/São Paulo)

Superliga Nacional

24/jul – Botafogo Challegers 0-23 Santos Tsunami (CT Santa Iria/Ribeirão Preto)
30/jul – Flamengo 59-0 Botafogo Challengers (Vila Olímpica/Duque de Caxias)
11/set – Vila Velha Tritões W.O Botafogo Challengers (Vila Velha)
24/set – Minas Locomotiva W.O. Botafogo Challengers (Belo Horizonte)
8/out – Botafogo Challengers W.O. Serra Cabritos (Ribeirão Preto)
15/out – Botafogo Challengers W.O. Botafogo Reptiles (Ribeirão Preto)

*Nota do autor: apesar do jogo ser em São Paulo, o mando de campo era dos Challengers.

  • Estêvão M V Machado

    Acredito que devido à imensidão do país e as condições financeiras dos times, deveria ser repensado a estrutura do torneio. Quem sabe não daria certo se fosse por classificação: estadual / regional / nacional. Poderia limar a 2° divisão, fortaleceria campeonatos em cada estado e só teria a necessidade de enfrentar distâncias continentais caso houvesse classificação para o nacional, que poderia funcionar como playoffs.