A organização do futebol americano no Brasil está atrasada em um século

São Paulo Storm e Rio de Janeiro Imperadores em jogo válido pelo primeiro TTD. Foto Blog da AFAB/Divulgação/Futebol Americano Brasil

Opinião – Por Leonardo Oberherr

Depois de causar um pouco de polêmica levantando a questão dos imports que são tratados como heróis e endeusados por nós do futebol americano brasileiro, tenho mais um assunto polêmico, este, talvez, eu esteja quase sozinho na teoria: sim, estamos atrasados em um século.

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Sabe por quê digo isso? Adoramos comparar os futebóis. Futebol americano e futebol no Brasil inevitavelmente são comparados em todos os momentos, por diversos motivos. Embora, digamos que não queremos tomar o espaço do futebol no coração do brasileiro, sabemos, lá no fundo, que para nosso esporte ser suficientemente grande como queremos, temos sim que tomar este espaço, ou, ao menos, fazer o brasileiro conviver com dois esportes, assim como os americanos fazem com basquete, gridiron, beisebol e outros.

Vou explicar neste texto de opinião, qual a minha teoria para chegarmos ao nível de grandeza do futebol no Brasil, mas, antes, precisamos contextualizar as variáveis.

Pensamos que para tomar este posto no coraçãozinho do brasileiro, o futebol americano precisa criar heróis, espelhos para os outros se enxergarem, ao menos, é esse o motivo de tanto comemorarmos Cairo Santos e Durval Queiróz Neto na National Football League (NFL). Para o brasileiro ter outro brasileiro em quem torcer nas grandes ligas. Cá entre nós, isso é bobagem.

Será o futebol americano o abençoado por este fenômeno? Pois, nenhum outro esporte conseguiu este feito.

Como foi o cenário do consumo de outros esportes no Brasil

O tênis, do ídolo Gustavo Kuerten, não chegou nem perto de chegar à massa.

O futsal – que além de ser parecido com o futebol, tem o melhor jogador da história Falcão – e também não conseguiu incentivar tantas pessoas a irem nos ginásios acompanhar seus times. Uma média de aproximadamente 1,2 mil torcedores na Liga Nacional de Futsal foram registrados no ano de 2016, último dado encontrado sobre este tema, mesmo com jogadores como Falcão, Pito, Valdin, Ciço, Cabreúva, Gadeia e Rodrigo Capita desfilando por aí. É uma seleção que possui 22 títulos de nível mundial, e a média de público de 1,2 mil torcedores.

Que tal o vôlei? No masculino, nunca perdeu nenhum Sul-Americano, desde 1951. Nove vezes campeões da Liga Mundial, e mais nove medalhas douradas entre Copas do Mundo, Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais. Nem isso faz o torcedor levantar do sofá e acompanhar um jogo no ginásio.

O mesmo serve para o basquete, o MMA, o boxe, nada além do futebol consegue penetrar e conquistar o amor do brasileiro.

Ayrton Senna e a Fórmula 1 podem ter sido o caso de mais sucesso, que mais tenha chegado perto deste feito, porém, reuniu fãs fáceis. Ligar a TV, sentar no sofá e assistir uma corrida? Tudo bem, já é bastante, mas muito pouco, se considerarmos o incentivo às pessoas mais pobres a irem num circuito quando a F1 se fazia presente em São Paulo ou Rio de Janeiro ou comprar camisas, bonés e mini capacetes – que talvez seja o intuito de discutirmos e mensurarmos o amor de um fã pelo time ou esporte.

Os primeiros passos foram longos demais

Agora vamos ao âmago da questão, o futebol americano no Brasil vive o que o futebol viveu em 1920. Temos de aceitar que ninguém consegue vencer o tempo. O esporte da bola oval começou a tomar forma em 2008 no País. Sabe o da bola redonda? Por volta de 1895 e com campeonatos amadores a partir de 1902. A profissionalização começou a engatinhar apenas em 1937, após a CBD ceder à pressão.

Os primeiros campeonatos regionais surgiram pelo menos 40 anos após a chegada do esporte no País, e é neste ponto que quero chegar.

A primeira edição do Torneio Touchdown ocorreu em 2009, um ano depois da primeira partida full pads da história. Apenas um ano de separação. E ainda assim, foi um torneio curto de três meses, com equipes das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde todos arcavam com o custeio de mandos. Sacaram a diferença? Se não, vamos lá.

O gridiron levou um ano entre a primeira partida full pads e o primeiro campeonato full pads* com times pagando suas próprias contas. O futebol levou quarenta anos. Tudo bem, tenho que alertar para o fato de serem épocas diferentes. Contextos históricos diferentes, tudo diferente, só uma coisa em comum: nenhum dos dois tinha dinheiro. No caso, a versão americana segue sem grana. Temos que encarar isso, o futebol americano brasileiro é pobre.

Só que agimos como se fôssemos ricos. Competições que exigem muitas viagens, que geram gastos exorbitantes. É tanta coisa que é difícil até alinhar os pensamentos. Vamos lá. Juro que volto a falar da comparação entre os futebóis, pois é nela que encontraremos a solução para nossos problemas.

Primeiro tomamos como fato que os times são pobres. Uns poderão argumentar sobre o Galo Futebol Americano. O Galo é um case fora do normal, assim como o Timbó Rex, talvez o João Pessoa Espectros, mas, não mais do que isso. Nem que sejam ricos, contudo, não são times que enfrentam grandes dificuldades para jogar. No mais, os programas contam moedas para mandar seus jogos, raspam os cofres para pagar ônibus e cumprir seus calendários.

Trago um exemplo que ocorreu em 2016. O Santa Maria Soldiers saiu de Santa Maria para jogar a semifinal da Liga Nacional em Sete Lagoas, diante do Belo Horizonte Eagles. Querem os números dessa insanidade? Mais de 3,6 mil quilômetros entre ida e volta, 66 horas de viagem, e R$ 20 mil (informações de acordo com a reportagem de Pedro Pavan, no GaúchaZH). Tudo isso por uma única viagem. Sabe-se lá quanto mais não foi gasto naquele ano. Mesmo com apoiadores, lembro que os Soldiers cogitaram a hipótese de não viajar para a partida. Além dos problemas financeiros, há um que interfere diretamente no campo. O ônibus tem limite de vaga. Precisa escolher um suprassumo de jogadores que possam atuar em bom nível por mais tempo e, se preciso, em mais de uma posição. Junto disso tudo, ainda tem o fato de viajar por mais de um dia. Não tem como competir de igual para igual.

Em 2017, o Salão Oval levantou qual a distância que os times que disputaram o Brasil Futebol Americano (BFA) percorreriam na fase regular. Dos 30 times envolvidos, 22 viajaram por mais de dois mil quilômetros. Para efeitos de comparação é como se fosse uma viagem do Parque Farroupilha, em Porto Alegre, até a Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Essa foi a distância que 73% dos times da competição andaram naquele ano – só na fase de grupos. Considere ainda que tem mais as viagens das finais. Olha, pelo que sei, dinheiro não dá em árvore, mas se der, o FABR tem uma plantação e não contou onde fica.

Boa parte destes custos, cabe ressaltar, são oriundos de patrocinadores, comercialização de ingressos dos jogos, mas, fundamentalmente, é pago pelo próprio atleta. Enfim, o futebol americano segue sem dinheiro e com baixa atração de público, que, no caso do futebol foi o alavancador para que mais e mais pessoas consumissem o esporte. É uma conta simples. Um time que possui mais torcida, mais gente indo para o estádio, pode oferecer um número maior de consumidores para um patrocinador em potencial. Quanto mais gente consumindo o esporte e o time, maior é o poder na hora de negociar novos contratos. Consegue me acompanhar? Mais fã é igual a mais dinheiro. Mais dinheiro significa mais estrutura, o que retoma àquela matéria que falo da estrutura dos times e sobre engajamento do público.

Leia a opinião sobre o investimento em estrutura para atrair novos fãs

Precisamos melhorar o target

De acordo com a pesquisa divulgada pelo site da ESPN, do jornal inglês The Independent, de 2015, quase 20 milhões de brasileiros se declararam fãs da NFL. Agora te pergunto: onde estão essas 20 milhões de pessoas que não frequentam os eventos nacionais?

Dados da Federação Gaúcha de Futebol Americano (FGFA) dão conta de que houve uma média de 368,3 ingressos sendo vendidos na fase regular do estadual de 2019. Até que não é dos piores números, mas é um indicativo que falta alguma coisa para atrair torcedores. Afinal, desses 20 milhões de fãs de NFL, se tivermos 200 mil que consomem o futebol americano nacional é muito. Será falta de qualidade técnica? De estrutura? De divulgação? Ou será que é a falta de identificação regional?

Chegamos ao ápice da minha teoria mirabolante. Falta reconhecermos em que pé estamos. Ora, não temos dinheiro, por que investimos tanto assim para jogar campeonatos que nos fazem gastar, gastar, e jogar pouco perto da nossa torcida?

O Timbó Rex, por exemplo, realizou 15 jogos em 2019 (o que aqui entre nós é coisa pra caramba!), sendo cinco pelo Campeonato Catarinense e dez pelo BFA. Dos 15 jogos, foram dez em casa, porém, somente quatro destes jogos foram organizados por conta das fases regulares. Guardem o dado. Em 12 meses, estava programado inicialmente apenas 4 jogos do Rex como mandante, os outros ocorreram porque o time teve a melhor campanha no estadual e nacional, por isso, mandou os jogos nos seus respectivos playoffs.

O Porto Alegre Gorillas disputou o BFA 2, diferentemente jogou apenas nove vezes, sendo três com seu mando de campo. Uma média de um jogo em sua cidade a cada quatro meses. Não precisa ser muito bom em cálculo ou estratégia para perceber que tu nunca vai conseguir fidelizar um torcedor oferecendo três jogos no ano na sua cidade. Ou é isso, ou o fã teria que viajar junto com o time, que no caso dos Gorillas representa um trajeto de 746 quilômetros para acompanhar o time no Campeonato Gaúcho de 2019. Se fosse um torcedor fanático, teria que somar ainda mais 3.234 quilômetros para acompanhar os jogos no segundo semestre.

Convence um assalariado a fazer isso. Mesmo que fosse de graça, tu não reúne mais do que dez pessoas dispostas a fazer isso. E para o time essa conta é cara também.

O atleta, com um pouco de razão, acredita que os custos devem ser pagos pelo time, e tudo bem, se não fosse o próprio atleta uma das principais fontes de renda da equipe. Conversei com o então presidente dos Gorillas, Henrique Altieri, que revelou o gasto do programa em logística, no ano de 2018, quando a equipe foi finalista do estadual e da Conferência Sul da Liga Nacional. Aproximadamente R$ 22 mil só com ônibus. Além disso, tem gasto com equipamentos, suporte e os jogos que a equipe mandou nas competições. Poucos times conseguem arcar com esse gasto todo.

A possível solução para o futebol americano

Sabe como o futebol se popularizou? Regionalização. Lembram-se que o futebol chegou em 1895 e se profissionalizou depois de 40 anos? Então, o primeiro campeonato de nível nacional, a Taça Brasil, foi realizada em 1959 direto nos playoffs e sem fase de grupos.

Entenderam a diferença? O futebol teve seu primeiro nacional cerca de 20 anos depois da profissionalização e 57 anos depois do primeiro torneio estadual amador realizado em São Paulo. Sua identificação fora construída por longos anos até poder ter dinheiro para organizar uma competição nacional com alguma condição.

Será que o futebol americano conseguiria fazer esse progresso de quase 60 anos em três? Bem, não. Demos o passo maior do que a perna. Não que tenha sido um erro, mas, permanecer nessa utopia, ainda mais depois de uma pandemia que ainda não passou e deverá terminar de lavar qualquer possibilidade de um time se manter forte financeiramente, aí sim, é uma insanidade.

Longe de mim criticar a Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA) ou BFA. Critico os times. Principalmente aqueles sem condição nenhuma de se auto sustentar.

O andamento no Rio Grande do Sul

O futebol no Rio Grande do Sul tem dois gigantes, dois grandes e uma grande porção de médios e pequenos. Destes, podemos dizer que pelo menos cinco times conseguem mobilizar torcedores em bom número para seus jogos e fazer com que eles consumam produtos, façam a roda girar economicamente. Falo de Grêmio, Internacional, Brasil de Pelotas, Juventude e Caxias.

Estes times foram fundados em 1903, 1909, 1911, 1913 e 1935, respectivamente. Quer uma semelhança entre os cinco times? A Dupla Gre-Nal começou sua história disputando o Citadino de Porto Alegre, criado em 1910. A dupla Ca-Ju, de Caxias do Sul, disputaram o certame citadino desde 1920 (no caso do Caxias, por óbvio, só passou a disputar depois de 1935). E o Brasil de Pelotas teve a mesma experiência no Citadino criado em 1908. Tudo isso traz à tona a importância da regionalização. É um processo que não se pode pular, nem esquecer e muito menos deplorar, como o futebol americano faz.

O Campeonato Gaúcho de Futebol, por exemplo, foi criado apenas em 1919, em jogo único entre Brasil de Pelotas e Grêmio. A partir de 1921, com um formato um pouco maior de quatro times. Isso 11 anos depois do Campeonato Citadino de Porto Alegre. Para a Taça Brasil, que, reitero, só foi disputada em 1959, 20 anos depois da profissionalização e teve ainda mais um tempero: apenas os campeões estaduais participavam.

Como proceder

Tudo bem que não temos, na maioria dos casos, mais do que dois times de futebol americano por cidade. Mas custa fazer um regional? Viagens curtas, mais jogos, mais proximidade com o torcedor, fidelização, e o principal sem gasto exorbitante.

Talvez esta seja nossa solução: regionalizar. Enfim, são táticas para vencer essa barreira que atinge todos os esportes no Brasil. Temos que entender em que meio estamos inseridos e o que fazer com este contexto para que saibamos usá-lo da melhor maneira.

Aprenda o futebol americano e aceite que ainda estamos em 1920.

*No primeiro semestre de 2009 foi realizado o Torneio de Seleções, o que viria a ser a primeira competição nacional da história.

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