Até que ponto pesa a permanência de um jogador americano?

Lukas ajudou no desenvolvimento do futebol americano em Caxias do Sul, mas deixou uma lacuna após sua saída do programa. Foto Juventude/Divulgação/Futebol Americano Brasil

Opinião – Por Leonardo Oberherr

Começando pelo óbvio: sozinhos, não vão ganhar nada. O texto a seguir fala basicamente de experiências próximas deste que vos escreve. Por isso pouco cito os grandes atletas que equipes como Timbó Rex, Galo Futebol Americano ou os times do Nordeste recrutam. É uma visão mais gaúcha, pois, nossa realidade é menos afortunada do que destes times maiores do cenário nacional, mas, a crítica pode servir para todos.

Se eles não são atletas profissionais – uma vez que o salário vem de um outro emprego – podemos cobrá-los como tal? É uma pergunta difícil de ser respondida. Se comparados aos brasileiros, sim, devem. Os brasileiros não nascem com o gene do futebol americano na veia, diferentemente da maioria dos americanos. Brasileiros precisam trabalhar para se sustentar e precisam treinar muito para chegar ao nível de um americano que viaja o mundo somente como jogador.

Se tu te dispõe a ser um jogador de futebol americano, independentemente de nacionalidade, tu te coloca à mercê da necessidade dos times emergentes, que querem absorver o máximo de conteúdo de um americano.

A ilusão no futebol

Vamos futebolizar? Durante anos, torcedores organizados do Grêmio creditavam esperanças apenas aos castelhanos. Jogadores que não tinham o espanhol como língua nativa não tinham a simpatia dos torcedores. E qual o motivo? Espera-se que um jogador internacional seja melhor que os nacionais.

Nosso subconsciente trabalha com a ideia de que um jogador que atua fora de seu país é bom demais para ficar em seu próprio. Quando chegam de outro lugar, por mais que a competitividade seja diferente, se espera qualidade do estrangeiro. Afinal, ele foi selecionado com maior critério de um time exterior.

Uma divisão de elite do futebol tem, pelo menos, 220 jogadores titulares em suma. Se tu contrata um é porque ele deve ser o melhor – ou um dos melhores – do país. Logo, ele chega aqui e deve ser melhor que os jogadores comuns produzidos nacionalmente.

Vale a mesma coisa para o futebol americano?

Voltando ao futebol americano, essa máxima não é muito verdadeira. Americanos que são exportados de seu país de origem, invariavelmente, por melhores que sejam, são jogadores que não chegaram a elite: a National Football League (NFL). Isso os fazem ruins? Não. Eles podem desequilibrar, e isso que se espera. Mas nem sempre acontece.

Busquemos na história do próprio futebol americano jogado no Rio Grande do SulTim Lukas e Ricardo Miller, ambos com passagens pelo Juventude. Lukas passeou no Campeonato Gaúcho, já Miller jogou bem, mas não era a estrela daquele título conquistado pelo programa em 2015. No Torneio Touchdown (TTD), os dois pouco puderam fazer diante de outros americanos de equipes como Timbó Rex de Drew Hill, Jaraguá Breakers de Phil Browder II, ou o Paraná HP de Elijah Freeman.

Em 2017, Jobari Coleman e Ray Bradley, pelo Porto Alegre Pumpkins, e Lorenzo Gray pelo Canoas Bulls, tiveram caminhos distintos. A dupla dos Pumpkins levou a equipe desacreditada até a semifinal do Campeonato Gaúcho. Já Gray pouco fez em sua passagem pelos Bulls.

Este é o caminho para o sucesso do programa?

Apostar em americanos não é sinônimo de sucesso, mas ajuda. Mas só americanos? Vou revelar aqui um bate – papo que tive em 2017, entre Eduardo Ferreira, presidente do Juventude, Geraldo Takanage, do Overtime do FA, e Carlos Constantinov, do Salão Oval. Estávamos falando sobre reforços e a disputa do Brasil Futebol Americano (BFA) que estava por vir, e o Constantinov comentou algo que dificilmente me esquecerei: “qual o motivo de sermos tão apegados aos americanos? Os mexicanos vem aqui, jogam tão bem quanto ou até melhor, são mais baratos e não chegam com o estigma de ídolos”.

Isso me faz refletir até hoje. Constantinov tem razão. Em tese, o jogador de futebol americano nascido nos Estados Unidos é um personagem. É aquele cara do Blue Mountain State, e de qualquer filme de colegial americano: um fanfarrão. Poucas pessoas conseguem ter contato diário ou semanal com um americano. Eu moro em Sapiranga, nunca vi um andando nas ruas da minha cidade. Quem mora em grandes metrópoles, talvez até tenha mais contato, mas, quase sempre, o nosso maior contato com um americano é pelo filme com visão hollywoodiana.

Os mexicanos jogam futebol americano há tanto tempo quanto nos Estados Unidos, tem uma seleção nacional desde 1978, afiliada à IFAF desde 1998, com a Liga de Fútbol Americano Profesional (LFA) e não são estereotipados como heróis.

Alguns americanos confirmam a expectativa e outros não. Vale o risco? Vale. Marvin Desire e AJ Brown livraram o Juventude do rebaixamento do BFA de 2017, ao vencer, no sufoco, o Curitiba Brown Spiders. Clinton Greenaway chegou ao Estado para atuar no Santa Maria Soldiers. Contribuiu para a unidade de ataque de Douglas Rodrigues. Logo foi recrutado pelo Sada Cruzeiro e foi campeão brasileiro.

O fato é que os americanos trazem ânimo novo. Trazem algo diferente. Faz com que os demais atletas entrem em um cenário americanizado por conta da língua, nos treinamentos e nos jogos. Ter um americano do teu lado te dá ânimo. Te dá a falsa sensação de estar na NFL. O teu imaginário responde dessa forma e é natural. Mas só isso basta? Considerando o cenário pouco promissor nos primeiros meses pós-pandemia, as chances dos times terem dinheiro para bancar grandes jogadores americanos são muito baixas. Logo, precisará investir em atletas da base, ou até mesmo em brasileiros mais rodados.

Precisamos olhar melhor para nossa base para que em médio e longo prazo os times não precisem buscar e arriscar seus preciosos centavos em jogadores que chegam com um enorme ponto de interrogação na testa.

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