Liderança, resiliência e ser fã de Peyton Manning: características dos quarterbacks que já lançaram para mais de 100 touchdowns na carreira

Góes, Bassani, Fadini, Martire e Rodrigues são quarterbacks em destaque na história brasileira. Foto montagem Arquivos pessoais/Richard Ferrari/Futebol Americano Brasil

Lembramos e esquecemos o tempo todo, principalmente no esporte, onde o brasileiro é conhecido por ter memória curta. Os alvitres e registros documentais se articulam para moldar uma narrativa da realidade. Este processo é fundamental para a construção das identidades sociais, formação de ídolos e criação de pertencimento a uma comunidade. Para manter a história viva e não oblitera-la, o Futebol Americano Brasil foi atrás dos quarterbacks brasileiros que atingiram a gloriosa marca de cem passes para touchdowns na carreira.

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De acordo com a base de dados do Mapa do FABR, quatro jogadores atingiram a marca: Catullo Góes, da Portuguesa Futebol Americano, com 135 conexões para touchdown lidera o ranking, seguido por Luiz Carlos Bassani, do Timbó Rex, com 120 passes e Álvaro Fadini, que fecha o pódio com 106 passes. Ramon Martire, que atuou pelo Coritiba Crocodiles em 2019 e atualmente se encontr ano Flamengo Imperadores, com 103 touchdowns é o quarto da lista. Há, ainda, Douglas Rodrigues, quarterback multicampeão do Santa Maria Soldiers, com 98, entretanto, este número pode variar para cima, uma vez que há falta de registros na época em que o jogador atuou no programa do São José Istepôs entre 2014 a 2017. Logo, é possível – e provável – que ele tenha, também, atingido a marca dos 100 passes para touchdowns na carreira.

Para entender um pouco da magia por trás destes cinco históricos quarterbacks, conversamos com cada um deles para saber quais características e como entendem esta marca que faz os jogadores figurarem no hall da fama do esporte no Brasil.

Góes usa o Madden para absorver melhor o entendimento do jogo

Góes, de 27 anos, e autor de 135 passes para touchdowns em sua carreira, foi outro que começou sua trajetória no esporte através de amigos que levaram uma bola de futebol americano para a escola. Jogador da Portuguesa Futebol Americano desde 2009, quando ainda se chamava Guarulhos Rhynos, o signal caller conta que foi aos 13 anos que teve seu primeiro contato com o futebol americano, na escola, por conta de um colega que levou uma bola e incentivou Catullo a assistir aos jogos. O primeiro deles foi o confronto final da American Football Conference da National Football League (NFL) entre Indianapolis Colts e New England Patriots, em 2006. Desde este momento, ele passou a torcer pelo time de Foxborough, e, passou a jogar o Madden para absorver mais sobre a dinâmica do esporte.

Fã de Tom Brady pelo seu alto nível de competitividade, qualidade e, ainda, com diversos títulos de Super Bowl, Góes comenta que se espelha no quarterback do Tampa Bay Buccaneers na forma como ele lida com decisões e seus companheiros de equipe.

Góes se diz muito feliz em atingir esta marca.

— Eu fico muito feliz mesmo. Olhando em retrospectiva, eu jamais imaginei que um dia isso pudesse acontecer. Na minha cabeça eu só estava me divertindo, treinando o esporte que eu amo e estando ao redor de pessoas queridas. Provavelmente esse desempenho só foi a consequência natural de estar em um ambiente tão positivo e saudável para mim. Esse número não é só uma marca minha, mas sim responsabilidade de todo mundo com quem eu estive junto ao longo desses anos, que fizeram tudo isso ser possível — comentou.

Para o jogador, o quarterback precisa ser exemplo, deve estar no time para servir. Ser o primeiro a chegar, o último a sair, motivar os companheiros, ajudar nas tarefas rotineiras e ajudar a todos a exercer atitudes positivas.

— Lançar bolas, estudar e fazer touchdowns são só detalhes dentro de um processo enorme de lidar com pessoas e criar um ambiente vencedor. Não sei se eu tenho todas essas qualidades, mas com certeza é nisso que eu acredito e é nisso que eu foco para desenvolver e trabalhar com meus companheiros — revelou.

Entre os treinadores mais influentes em sua carreira, Paulo Henrique Tidus é o principal.

— Obviamente todos os treinadores com quem já estive me ajudaram a ser o jogador que sou hoje, principalmente, os atuais, que têm influência direta no time que a Portuguesa é hoje. Porém, o Tidus me mostrou esse lado importantíssimo de se lidar com pessoas e servir com influências positivas. Isso ajudou a moldar a cultura do time e até mesmo construir caráter de muitas pessoas que conheceram o esporte bem novas, como é meu caso. Me sinto muito grato e sortudo de ter esse cara como meu treinador e principalmente amigo —disse.

Recordando sua trajetória, Catullo conta que entre as 12 temporadas junto à Lusa, dez são como quarterback. Em 2016, o atleta conquistou o prêmio de MVP do Campeonato Paulista de Futebol Americano, primeiro ano da sequência que deu o tricampeonato estadual ao Lusa Lions (2016, 2017 e 2018).

— Acho que a coisa mais valiosa desse currículo não são os touchdowns, nem jogos e muito menos títulos. E sim, saber que estou há muito tempo ajudando a construir esse time. Enquanto eu puder continuar servindo e desempenhando meu papel da melhor forma, ajudando as pessoas ao meu redor, pode ter certeza que esses números invisíveis só vão crescer. Eu gosto muito da ideia de longevidade. Seria injusto diminuir metas importantes apenas à âmbitos pessoais, então, eu amo o fato de estar no mesmo time desde o início e saber que todas as piores derrotas e melhores vitórias vieram comigo em campo. Saber que eu vivi tudo isso e aprendi a partir disso junto com tantas pessoas que cresceram junto comigo, é incrível. Saber que num esporte amador e com tantas dificuldades no nosso País, eu consegui desempenhar minha função todos os anos desde 2009, sem perder nenhum ano, me deixa muito feliz. Pode não ter o glamour e destaque de títulos nacionais, MVPs, ou aparições em seleção brasileira, mas, com certeza, a longevidade e consistência no meu time para ajudar todos a formarem um programa mais vencedor a cada ano, é o que mais me deixa feliz. Talvez a maior meta que ainda falte seja uma meta coletiva para coroar esse esforço de todos: o título nacional — almeja.

Bassani se espelha em em Vick e Brady para dominar o pocket

O segundo com mais passes para touchdowns é Bassani, quarterback de 27 anos do Timbó Rex, eleito pela imprensa no Top 100 jogadores FABR 2019. Bassani conta que conheceu o esporte na época em que jogava handebol e que um colega de time havia comentado sobre a criação das categorias de base do Rex, ainda em 2008.

Torcedor do New England Patriots, Bassani conta que admira o estilo de jogo de Michael Vick, motivo dele ter escolhido vestir o número #7. Além dele, Ray Lewis e sua intensidade, juntamente do alto nível de Tom Brady, formam as principais características que fazem do catarinense fã destes jogadores.

— Gosto muito das estatísticas, porque números não mentem. Temos que fazer mais estatísticas os jogos, isso atrai a atenção do público ao nosso esporte. Fico feliz em poder estar neste seleto grupo, espero que logo mais outros quarterbacks cheguem nessa marca também — comentou.

O signal caller atribui à qualidade dos companheiros de equipe e de seus treinadores para chegar à marca de 120 passes para touchdown.

— É difícil dizer qual foi o que mais influenciou. Todos me ajudaram em algum certo momento. Creio que os coaches têm que ser mais que um treinador para o atleta, e sim amigos, pessoas em que o player confia. Ter pessoas de qualidade ao seu lado para te ajudar a evoluir e crescer como atleta e pessoa são fundamentais, além de, claro, ter resiliência nos jogos e treinos — acrescentou.

Na equipe catarinense, Bassani conquistou em duas oportunidades o Torneio Touchdown e a Superliga Nacional (2015 e 2016), foi cinco vezes campeão da Conferência Sul dos respectivos certames brasileiros (2014, 2015, 2016, 2018 e 2019), cinco vezes campeão catarinense (2015, 2016, 2017, 2018 e 2019), MVP do do estadual em dois momentos (2015 e 2017) e três vezes o MVP de ataque do catarinense (2015, 2016 e 2017).

Precisão de Brees é o que move Fadini

Já o quarterback de 33 anos, Álvaro Fadini migrou de outro esporte. Ele relembra que saiu do basquete para jogar futebol americano nas praias de Vitória através do convite de alguns amigos. Recebedor de origem, o atleta que iniciou carreira em 2011 se tornou quarterback em 2014, ainda no Vila Velha Tritões. Fã de Ayrton Senna e Oscar Schmidt, é em Drew Brees uma grande inspiração no futebol americano, principalmente por conta da precisão de seus passes.

— Obviamente o número em si é algo que me deixa orgulhoso, uma conquista para o currículo e talvez fique aí marcada na história do futebol americano no Brasil por algum tempo, mas o que o número realmente representa para mim é a trajetória até alcançá-lo. todo o esforço investido e todos que fizeram parte e de alguma forma nessa conquista — celebrou.

De acordo com Fadini, para atingir esta marca e quebrar outros recordes, é muito importante que o quarterback tenha o que conhecemos como football IQ, que é, basicamente, a capacidade de ler as jogadas e entender o esporte. Além disso, a resiliência é outra característica citada pelo jogador, além de, é claro, o desejo de vencer.

Fadini cita ainda alguns coaches que foram importantes em sua carreira para atingir esta marca de 106 touchdowns.

— O coach Daniel Levy, meu mentor e o treinador que me moveu para quarterback mesmo contra a minha vontade. Lex Braga e Clayton Lovett que mesmo sendo mais defensivos, sempre me deram bons conselhos e o coach Tyler Harlow, meu QB coach na Áustria que me ajudou e muito a refinar minha técnica e me proporcionou dar um passo à mais como quarterback — finalizou.

Confira a seguir algumas marcas importantes registradas pelo jogador:

2011 – Revelação ofensiva do Torneio Touchdown jogando como wideout pelo Vila Velha Tritões
2015 – MVP ofensivo do Torneio Touchdown na fase regular pelo Vila Velha Tritões
2016 – Campeão da Copa America de Fútbol Americano no México com o Belo Horizonte Get Eagles
2017 – Brasil Bowl VIII e MVP da final pelo Sada Cruzeiro, 1st string QB pelo Brasil Onças no amistoso contra a Argentina Halcones
2018 – Brasil Bowl IX pelo Galo Futebol Americano
2019 – Silver Bowl XXII e MVP pelo Cineplexx Blue Devils na Austrian Football Division One (espécie de segunda divisão austríaca)
2020 – Reconhecimento como treinador na Česká Liga Amerického Fotbalu (ČLAF) pelo Ostrava Steelers

Martire tenta ser um misto de Manning e Favre

O carioca Ramon Martire, de 32 anos e jogador da IFAF World Championship de 2015 em Canton, nos Estados Unidos, é o quarto quarterback que mais passou para touchdowns na carreira: total de 103 de acordo com o levantamento. Torcedor do Tennessee Titans, ele revela ser muito fã de Peyton Manning, pela genialidade, e Brett Favre, que, segundo a opinião, é o jogador mais durão que viu jogar na função de quarterback.

Jogador há 14 anos, Martire reconhece a importância de ter bons companheiros de equipe para ultrapassar a marca de 100 touchdowns passados.

— Não teria como deixar de enaltecer o trabalho dos recebedores. Tive a sorte de ter sempre bons atletas nos times que joguei e que ajudaram muito para que eu chegasse nessa marca. Chegar a 100 passes para touchdown no Brasil é algo bem difícil de se conseguir. Temos poucos jogos durante o ano, e, para mim, que comecei em uma época que não existia estadual e jogávamos quatro, cinco, às vezes seis jogos por ano, é uma marca bem difícil de se alcançar — complementou.

Martire elogia o papel de Otávio Roichman em sua carreira, dizendo que foi um coach que o ajudou muito na posição, sobretudo no começo da carreira, além de Brian Guzman, treinador do Brasil Onças, que, segundo o jogador, auxiliou que ele aprendesse mais sobre o ataque como um todo.

Em seu currículo, Martire atuou pelo Rio de Janeiro Imperadores e Fluminense Imperadores entre 2009 e 2014, conquistando dois títulos brasileiros, sendo que em 2014, atuando pelo Corinthians Steamrollers, conquistou o Torneio de los Andes, no Peru. Entre 2015 e 2018 atuou pelo Botafogo Reptiles,  teve uma passagem rápida pelo Cruzeiro Imperadores, chegando em 2019 ao Coritiba Crocodiles. Foi convocado em diversos momentos para a seleção brasileira, tendo disputado o Mundial de 2015.

— Já fui campeão nacional como técnico U20 pela Rio Football Academy em duas oportunidades. Acho que com tudo que fiz na seleção e os títulos, tanto como atleta e tanto como treinador, me deixam muito feliz com minha carreira no futebol americano. Minha vida pessoal está me levando por outros caminhos nesse momento e o futebol já não é mais a prioridade que já foi, mas, eu pretendo me dedicar ao flag masculino no ano que vem, que deve participar do mundial, e acredito que ainda tenho uns dois ou três bons anos no esporte se a vida pessoal permitir — afirmou.

Rodrigues é mais um admirador de Manning

Atleta há 12 anos, Douglas Rodrigues, do Santa Maria Soldiers, aparece no levantamento com 98 passes para touchdown, mas, as estatísticas não computam parte das marcações anotadas durante seu período no São José Istepôs. Rodrigues é o quarterback mais vitorioso do estado do Rio Grande do Sul, com quatro títulos estaduais. Ele é um dos fundadores do Santa Maria Soldiers, juntamente com Matheus Soares, que, de acordo com o player, foi o incentivador para a entrada dele no esporte. Ele conta que Soares havia levado uma bola de futebol americano infantil para a escola e, a partir daí, se apaixonou pelo esporte.

Outro admirador de Peyton Manning, a exemplo de Ramon Martire, Rodrigues aprecia o fato de Manning ser considerado um coach dentro de campo, característica que o brasileiro possui dentro do campo, uma vez que, por diversas temporadas, assumiu a função de quarterback e, também, coordenador ofensivo do programa.

— Acredito que ser um quarterback de elite é ter a união de vários pontos. É preciso estudar muito o aspecto estratégico do jogo, ser um líder no qual o ataque confie e apoie, fazer com que as pessoas ao seu lado também evoluam no jogo e ainda desenvolver a parte mecânica do jogo. Não é uma posição fácil de jogar, justamente por precisar de vários pontos bem desenvolvidos — destacou.

O recebedor de origem, comemora o feito histórico atingido em sua carreira como quarterback.

— Sinto muito orgulho, sim, principalmente por ver o que éramos há 12 anos. Sem pads, sem reconhecimento, fomos galgando e lutando para fazer o esporte crescer, e me considero importante nesse processo dentro do Rio Grande do Sul, e também, no Brasil — disse.

Rodrigues possui em seu currículo ainda um campeonato catarinense e o título de MVP do Gaúcho Bowl X.

Nota do editor: uma menção honrosa para os signal callers Rinaldo Mitref (João Pessoa Espectros), Daniel Pereira (Cuiabá Arsenal), Jackson Kestring (Jaraguá Breakers/Corupá Buffalos/São José Istepôs), Dennis Prants (Joinville Panzers, Curitiba Tigers, Cuiabá Arsenal, Manaus Cavaliers) e aos americanos – praticamente brasileiros – Casey Frost (Corinthians Steamrollers/São Paulo Storm/Ponte Preta Gorilas/Flamengo Imperadores/Juiz de Fora Imperadores/Pouso Alegre Gladiadores) e Drew Hill (Timbó Rex), que ajudaram a desbravar o backfield no Brasil.

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