Mingoni quer estabelecer quatro pilares para governança da CBFA caso seja eleito presidente

Transparência, equidade, accountability e responsabilidade corporativa são os pilares destacados por Mingoni na gestão da CBFA. Foto Tiago Munden/Locomotiva/Futebol Americano Brasil

Após definida a chapa “Nova CBFA”, encabeçada por Ítalo Mingoni e Lucas David, nesta quinta-feira (21), o Futebol Americano Brasil entrou em contato com o candidato a presidente da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA) para entender quais os planos e objetivos a serem traçados pela direção durante sua possível gestão.

Saiba como foi a temporada 2018 do BFA

Confira abaixo a entrevista na íntegra realizada pelo produtor de conteúdo Yago Glatz com Mingoni.

Futebol Americano Brasil – Ítalo, a chapa formada por você e o Lucas David (head coach do Recife Mariners), terá como lema, a ideia de uma “Nova CBFA”. Quais são os pontos que vocês consideram cruciais para que realmente haja uma nova CBFA?

Ítalo Mingoni – Desde o início da conversa, onde analisávamos a possibilidade de protocolar uma chapa, um dos alicerces da discussão foi a profissionalização da gestão, principalmente no âmbito de governança corporativa e os seus pilares básicos: transparência, equidade, accountability e responsabilidade corporativa. A partir daí, estamos trabalhando na confecção de um planejamento estratégico para nos dar direcionamento e traçar estratégias para alcançar metas através de iniciativas. Em algum momento do processo eleitoral, será destinado um tempo para apresentação da chapa, onde aprofundaremos nesses temas. Posteriormente, caso a candidatura seja aclamada de fato, o planejamento estratégico será apresentado a toda comunidade do futebol americano no Brasil.

Eu, como parte envolvida do futebol americano no Brasil, sou eternamente grato a todos os gestores que passaram pela Confederação até agora. Todos eles foram guerreiros de assumir a administração da entidade máxima, com inúmeras adversidades. Dedicaram tempo e em muitas vezes recursos financeiros próprios. Entretanto, a comunidade aclama por um passo sólido rumo a profissionalização e precisamos começar pela gestão.

Anteriormente, mesmo que todos os gestores que passaram pela CBFA fossem extremamente competentes, a falta de disponibilidade fazia com que a entidade não fosse tratada como uma prioridade. Hoje, para que consigamos desenvolver o esporte no mesmo ritmo do seu crescimento, se faz necessário uma dedicação exclusiva, com pessoas competentes, dispostas e disponíveis.

FABR – O futebol americano no Brasil ainda é um esporte que depende da contribuição de grande parte dos praticantes do esporte. O que será proposto para mudar esse panorama e como a CBFA poderá auxiliar as equipes neste momento?

Mingoni – Infelizmente, neste ponto, não há muito o que mudar em um curto espaço de tempo dentro do alcance das atribuições da confederação. Muitos motivos implicam neste fator e em sua grande maioria, são fatores externos, que não dependem da confederação para mudar. O primeiro é como o sistema nacional de desporto é desenhado. O que mantém as entidades regulatórias nos estados as federações e no país a confederação, em todas as modalidades esportivas no Brasil, são as taxas administrativas, federativas e confederativas. Mesmo aquelas que possuem incentivo governamental via Lei Agnelo Piva (LAP) ou Lei de Incentivo ao Esporte (LIE). Ainda mais com a instabilidade governamental que o setor do esporte passa.

Entretanto, faz parte do planejamento estratégico, em iniciativas de curto-médio prazo, entrar em conformidade com as diretrizes da Secretária Especial do Esporte (SEE) e do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Somente dessa forma, a confederação e seus afiliados poderão pleitear algum tipo de benefício estatal. Em questão de planejamento, será estruturado um programa de capacitação voltado para que equipes, para que captem recursos diretos ou incentivados. Mudar este panorama não será fácil, serão décadas de trabalhos pautados em governança corporativa, mas precisamos de começar de algum ponto.

FABR – O Brasil Futebol Aamericano é uma liga reconhecida pela CBFA, como sendo a elite do esporte no país. Na antiga gestão, foi proposto um modelo de gerenciamento que é liderado pelo Marcelo Bruno. A chapa “Nova CBFA” seguirá o que foi proposto pela antiga presidência ou haverá reformulação no torneio?

Mingoni – Respeitando a responsabilidade corporativa, a nova gestão, se aclamada, cumprirá com os acordos firmados e diretrizes adotadas pela gestão anterior. Evidentemente, alguns desses procedimentos e atos administrativos têm necessidade de serem revisados ou renegociados. Colocaremos sempre o melhor para o futebol americano a frente de todas as decisões, nem que isso implique ambas as partes ceder.

FABR – Ano passado, a segunda divisão nacional era controlada pela Liga Nacional, torneio privado e chancelado pela CBFA. Entretanto, por problemas entre o antigo presidente e o gestor da LNFA, a mesma perdeu sua chancela e a CBFA teve que criar a BFA 2. Como será organizado essa divisão e o que será proposto para as equipes que participam dela, tanto no sentido organizacional, quanto financeiro?

Mingoni – Por deliberação da antiga gestão, através do Informativo 18/2018 no dia 17 de novembro de 2018, a chancela da organização já foi outorgada para a BFA. Ou seja, não cabe a nova gestão definir como será feito, entretanto, buscaremos a maior aproximação possível entre confederação e liga, para que o esporte seja o maior favorecido. O BFA tem se mostrado extraordinariamente competente em suas funções de organização de competições. Assim como a LNFA também foi exemplar, em termos técnicos, na organização dos seus eventos. Tenho convicção que os seus organizadores, em momentos que se permitam, possam voltar a trabalhar novamente com a confederação.

FABR – O futebol americano no Brasil passa por um momento de transição e um dos maiores imbróglios existentes é a arbitragem. Como será o tratamento deste setor pela chapa?

Mingoni – Cumprindo o princípio de equidade dentro da governança corporativa, a arbitragem, como um dos stakeholders da comunidade, receberão tratamento justo e igualitário. Mais uma vez, devemos buscar o balanceamento entre atender as necessidades, demandas e expectativas, tanto dos stakeholders quanto do mercado, contudo, o cerne da questão sempre deve ser o futebol americano no Brasil.

A arbitragem é um instrumento importante dentro do planejamento estratégico. Precisamos escutar o nosso mercado e desenvolver iniciativas para reparar as adversidades relatadas. Hoje, um dos maiores índices de queixas relacionada a arbitragem é sobre a qualidade da prestação dos serviços. Portanto, é natural que haja algum movimento regulatório visando capacitar e principalmente formar novos atores nesse setor. O mais importante é entender os anseios da classe e determinar um período de conformidade.

FABR – Você é, atualmente, general manager do América Locomotiva e um dos sócios da FA Manager, produto oferecido à CBFA para gestão esportiva dos torneios. Você disse também, que por conta de sua candidatura, irá se afastar do Locomotiva e da Wise/Big Mídia. O produto FA Manager ainda será a prestadora de serviços da CBFA?

Mingoni – Como disse anteriormente acima, é importante obedecer a responsabilidade corporativa e cumprir os acordos firmados pela antiga gestão. Certamente, a nova gestão, se aclamada, buscará revisar, se houver, qualquer acordo que seja desproporcional, mas sempre assumindo os compromissos. Hoje eu desconheço algum produto semelhante, com um preço ofertado ao que a FA Manager oferecer no mercado. Como um dos idealizadores do produto, posso afirmar que ele foi inteiramente desenhando para suprir as necessidades das entidades regulamentadoras, integrando totalmente as bases. Então, possivelmente, no primeiro momento, será cumprido o acordo da última gestão e a FA Manager continuará como prestadora de serviço.

Entretanto, como prevê o Art. 44, Inc. III do Estatuto da Confederação, eu seria impedido de ocupar um cargo no Conselho Diretor caso seja ligado de forma relevante a qualquer empresa prestadora de serviços à CBFA. Desta forma, objetivando entrar em conformidade com o estatuto e me tornar apto a ser nomeado, caso a chapa seja aclamada, é natural que eu me desvincule por completo de qualquer empresa que preste serviços para a Confederação, sejam elas a Wise, Bigmidia ou o produto FA Manager, as quais estou vinculado hoje. No mesmo Art. 44, Inc. I, diz também que eu seja impedido caso eu seja membro executivo ou deliberativo da entidade filiada direta ou indiretamente à CBFA. O América Locomotiva hoje é filiado a Femfa, que é filiada a CBFA. Portanto, por questão de conformidade também, cessarei minhas atividades como general manager equipe.

Isso não quer dizer que eu não possa prestar serviços para qualquer outra equipe, como consultorias por exemplo. Nem muito menos ser técnico, nem atleta. São coisas completamente diferentes. Eu poderia continuar sendo um coach da equipe. Entretanto, como decisão única e exclusivamente pessoal, eu também me afastarei da comissão técnica de forma efetiva. Possivelmente, num futuro próximo, podemos voltar a trabalhar em conjunto, na figura de consultor por exemplo.

É importante a comunidade do futebol americano no Brasil entender os diferentes agentes que são Ítalo Mingoni neste momento. É um processo de transição que tem que ser feito de forma transparente, para que seja de compreensão de todos que o que existia de vínculo anteriormente foi cessado e que o novo agente está focado inteiramente na instituição de entidade máxima do esporte na modalidade. Solicito ainda, a todos os membros da comunidade, que não especulem ou presumam nenhuma informação. Sou muito correto em todos meus processos e principalmente muito acessível. Qualquer dúvida, eu estou à disposição da comunidade. Por isso a importância de veículos sérios de informação especializada como este são essenciais para a difusão correta e integral das informações.

FABR – Sobre a seleção brasileira: o Mundial seria realizado este ano, porém, por uma decisão da IFAF, o torneio foi remanejado para 2022. Quais são os planos para os Onças? Haverá algum amistoso para este ano? Você criará um comitê, ou órgão diretivo, que cuidará especialmente da seleção?

Mingoni – O núcleo de rendimento dentro do futebol americano precisa ser trabalhado, não somente na fullpads, mas nas demais modalidade, gêneros e categorias de idade. Então, sabemos que o Brasil Onças é principal eixo, mas todas as seleções devem ser valorizadas. Com relação ao Brasil onças em específico, é de extrema necessidade que haja algum evento ainda em 2019. Trabalharemos para captar algum jogo no Brasil, mas existem problemas logísticos, como calendário e financeiros.

As seleções são ferramentas importantes para manter o atleta de rendimento motivado, extraindo sua maior performance nas competições, elevando o nível do nosso esporte em diversos aspectos. Iniciativas voltadas para desenvolver o desporto de alto rendimento serão tomadas estrategicamente, principalmente visando a importação/compartilhamento de expertise e a exportação de atores envolvidos com a comunidade, sejam eles atletas, técnicos ou gestores, para se capacitar no exterior. Portanto, sim. Dentro do organograma terá um espaço destinado a seleções.

FABR – Sobre o torneio de seleções U20: Tivemos, na temporada 18/19, a segunda edição do torneio de seleções estaduais, com menos equipes que o ano anterior. Como será organizada a edição deste torneio e quais os planos para os jogadores jovens do Brasil?

Mingoni – Precisamos dar um passo de cada vez, principalmente em etapas estruturais. As seleções, como já dito, são ferramentas importantes. Entretanto, é necessário que se crie políticas que incentivem equipes a se tornarem equipes formadoras, principalmente nas categorias de base. Para criar um torneio de seleções estruturado, é necessário que federações incentivem equipes a fomentarem categorias de base. Não pode funcionar com um apanhado de praticantes que nasceram até determinada data.

Quando essas políticas, diretrizes e conformidades, precisam ser incentivadas antes de qualquer competição, justamente para não ocorrer um “campeonato de um único jogo”. Não quer dizer que deixaremos de trabalhar para a competição. Na minha opinião, ela foi uma conquista enorme e seria fatal não a incentivar. Todavia, para que seja um projeto sustentável, precisamos dar passos consistentes, rumo ao desenvolvimento ordenado e sustentável das categorias de base, inclusive as abaixo de U20.

FABR – O que a chapa pretende fazer para atrair investimentos para o esporte?

Mingoni – Mais uma vez, é um processo que demanda muito tempo. Basear-se em conceitos como governança corporativa, compliance e accountability já é o primeiro estágio de um ciclo vigoroso para tornar o mercado do futebol americano atrativo ao investimento direto. É importante tomarmos como case de sucesso o trabalho frente a Confederação Brasileira de Rugby neste sentido. Em concomitância, precisamos entrar em conformidade, como já dito também, com a SEE e COB. Só dessa forma, podemos requerer verbas públicas na esfera federal.

O mais importante para atrair investidores é tornar o mercado do futebol americano financeiramente cativante. Investidor aporta com um objetivo, obter Retorno Sobre Investimento (ROI) ou Retorno Sobre Objetivo (ROO). Este é um processo que precisa ser incentivado pela confederação, mas o mais importante, é toda a comunidade compreender que eles precisam adotar as mesmas práticas em suas instituições. Nós, que estamos envolvidos com o esporte, somos apaixonados e entusiastas. Isso dificulta enxergar falhas, portanto, precisamos procurar entender como o investidor pensa e o que ele espera de entrega sobre os eu investimento. Ninguém vai investir porque ama o futebol americano, quem investe quer algo em troca, então, precisamos escutar o que esses stakeholders têm a dizer ao nosso mercado. Com uma água límpida, o ouro reluz no fundo.

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