Você realmente quer ser um bom coach no futebol americano?

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Opinião – por Rodrigo Palaver

Algumas coisas nunca mudam no futebol americano. Aqui no Rio Grande do Sul, temos uma névoa em questão de evolução. Cada vez mais se criam times e cada vez mais temos um decréscimo em questão técnica. O esforço é totalmente válido. É ótimo termos mais oportunidades de se jogar o esporte, apesar de que eu acredite que já estejamos chegando na saturação de equipes. Este texto é direcionado a todos os times do RS, mas pode se aplicar em qualquer time do País. Todos podem se beneficiar com essas dicas. Alguns já sabem o que vou falar e já aplicam em seu time. Mas, você, coach com pouca experiência que assumiu um time recém criado, pode se beneficiar e muito com essas dicas (e alguns coaches mais velhos também). Vamos às dicas:

O mais importante são as linhas

O sucesso de um time sempre vai começar com a linha ofensiva e a linha defensiva. Pense em qualquer jogada ou sistema ofensivo, tudo inicia pela OL. De nada adiantaria bolar uma super jogada de end around com seu playmaker se você não tiver uma boa linha ofensiva capaz de executar os bloqueios. Ou, não adianta você ter o melhor quarterback do campeonato se sua OL não consegue dar a ele dois segundos ao menos pra passar.

O mesmo podemos dizer da DL. Uma defesa dominante nas trincheiras é a fórmula para o sucesso. Caso contrário, não haverá pressão ao quarterback adversário, muito menos o fechamento dos gaps em corridas.

Masterize os fundamentos

Masterizar técnicas fundamentais do futebol americano como stance, alinhamentos, catch, bloqueio, tackle e segurança de bola vai sempre levar um time ao sucesso quando comparada a qualquer outra ênfase. Ou seja, de nada adianta você treinar seu running back em agilidade, drills de cone e leitura de gap se ele não tem masterizados os fundamentos de segurança de bola e bloqueio. Imagine um running back rápido e muito bom de leitura, mas que ao primeiro contato cause um turnover com um fumble. Eu não gostaria no meu time.

O futebol americano sempre vai ser um jogo físico e mental

Aqui vem aquela eterna polêmica: quem não conhece o esporte diz que o futebol americano é violento. O futebol americano não é violento, apesar de ter alguns jogadores indisciplinados que são. O futebol americano é um jogo físico, de imposição física. Cobre de seus jogadores um comprometimento com o próprio físico. Isso fará uma enorme diferença nos jogos. O melhor seria ter um profissional desta área em seu time, para que acompanhasse o desenvolvimento dos jogadores. Uma avaliação física mensal também é salutar.

Outro ponto é a mentalidade. Existem jogadores que não possuem mentalidade adequada para esse esporte. Mas nessa seara, há três tipos: os reclamões, os preguiçosos e os instáveis. Os reclamões são aqueles que reclamam de tudo e erram bastante. Mas nunca o erro foi deles, sempre há uma desculpa. Os preguiçosos não estudam o playbook, não assimilam as técnicas e não se esforçam no treino. Em jogo, são os que mais erram a execução das jogadas e têm falhas individuais comprometedoras. Os instáveis são os mais complicados de se lidar. Eles são bons de grupo, e geralmente, são bons jogadores, mas perdem a cabeça muito facilmente. São jogadores que são ejetados por partirem para cima do adversário quando recebem um trash talk, ou que cometem uma falta boba e anulam um touchdown porque o defensor havia lhe provocado.

A mentalidade também se aplica aos coaches. Coaches, estudem. Aprendam o jogo. Procurem saber o que são cover beaters, quais formações de ataque, o que é personnel, o que é cover shell, front seven, etc. Muitas vezes, um jogo é ganho na mentalidade. Por exemplo, time perdendo e o coach percebe que os marcadores dos slots são de baixa estatura. Um coach com mentalidade sabe explorar isso e virar a partida, colocando seus maiores jogadores de slot (geralmente tight ends) para criar um mismatch. Combinar imposição física com mentalidade torna seu time muito competitivo.

Sempre será esperado que o quarterback seja o líder

Desde os primórdios do esporte, o quarterback sempre foi a figura do líder do ataque. E, com isso, espera-se que o quarterback seja também o líder do time e de vestiário. Os melhores times são guiados por um quarterback que possui um comportamento rígido e que sabe motivar seu time na hora certa (além do talento técnico, é claro).

O futebol americano continuará a lembrá-lo de importantes lições de vida muito depois de você pendurar as chuteiras

Essa dica eu me coloco inteiramente. Pendurei as chuteiras em 2016 e virei coach de running backs e depois coordenador ofensivo. É impressionante como o esporte te traz aprendizados constantes, desde gestão de pessoas ao conhecimento tático. As derrotas e vitórias servem para o aprimoramento pessoal e coletivo. Aprenda sempre. Observe seus jogadores, saiba exatamente o que cada um pensa. Interaja. Ajude a crescer. Seja presente. Um bom coach sabe gerir grupo e agregar pessoas à volta. Um bom coach disponibiliza muito conteúdo aos jogadores, mas também os ensina a assimilar tal conteúdo. Um bom coach cobra cada jogador de acordo com suas deficiências. Um bom coach, aprende diariamente com seus jogadores e suas histórias de vida.

O sucesso depende de uma pré-temporada de sacrifícios

Digo isso com base na temporada aqui no Rio Grande do Sul. Os times que jogam competições nacionais têm apenas três meses (e olhe lá) de preparação. E esses três meses coincidem com as férias da maioria das pessoas. Treinar duro sob um sol escaldante de janeiro é um baita sacrifício.

Todos preferíamos estar numa praia, relaxando. Mas o futebol americano exige intensidade. E é nesse período curto até o começo do campeonato gaúcho que as grandes equipes se moldam. É com intensidade e com comprometimento. Esse é o sacrifício. Se o melhor jogador de sua equipe não estiver em 100% dos treinos na pré-temporada, bom, talvez ele não seja seu melhor jogador. É impossível algum jogador apenas aparecer no jogo ou um treino antes e conseguir dar uma alta contribuição. Quanto mais suada for a pré-temporada, mais chances de ser um bom time durante a temporada. Ou seja, planeje bem sua pré-temporada.

A saúde do atleta em primeiro lugar

Já vi muitos coaches – os mais antigos, geralmente – dizendo em treino “quero ouvir barulho”, quando em algum drill de tackle, sem nem ao menos ensinar direito a técnica. Já repreendi treinadores ensinando a dar tackle com a cabeça baixa, e fui ignorado. Ser coach é como ser tutor, e um bom tutor cuida da saúde física e mental dos seus tutelados.

Uma das coisas mais impactantes para mim foi ver um wide receiver do meu ataque, e com ótimo potencial, largar o esporte por causa de uma lesão séria em um jogo. Naquele momento, parei e refleti bastante para ver onde eu podia ter errado. O futebol americano precisa de muitas execuções para que se desenvolva um sistema corretamente. E o coach deve se ater a isso.

Como prevenir as lesões em treinos e ter um treino forte? Foque na técnica e físico. Jogadores técnicos não cometem erros que acabam por gerar lesões. Eu aprendi com os coaches antigos que pediam para ouvir barulho de pad nos treinos. Graças a Deus, reformulei meu pensamento. Reformule o seu também, ainda é tempo.

O verdadeiro jogo dos ataques dinâmicos e explosivos e defesas dominantes

A coisa mais incrível sobre o futebol americano é que esse esporte é um jogo de xadrez durante as partidas. É um embate invisível aos olhos dos espectadores, mas que denota o rumo de um jogo. O mais importante é ter controle de seu grupo e saber o que cada jogador pode te oferecer durante uma partida. Não adianta nada você implantar um ataque West Coast e não ter o domínio mental do esporte. O verdadeiro jogo está na sideline. Os verdadeiros jogadores são os coaches, em seus embates de ideias.

O futebol americano não é um esporte democrático

A mídia criou aqui no Estado uma mística de que o futebol americano é um esporte para todos, democrático. Várias equipes do Rio Grande do Sul abraçaram a ideia e colocam em seus anúncios de tryout: “venha fazer parte do nosso time, não é preciso experiência!” ou “você é gordo, magro, baixo, alto, tem asma, tem problemas de visão? Você pode jogar futebol americano!”. Não, não podem. Venho batendo nessa tecla. E espero que você, coach, faça o mesmo. Não fique com pena de não ter colocado no coletivo ou no jogo aquele player mal fisicamente e que não tem nenhuma condição física ou mental para o esporte. Isso não é uma democracia.

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