July 28, 2021
Mendes (dir) aproveita momento no Pouso Alegre Gladiadores para incentivar outras pessoas. Foto Arquivo pessoal/Futebol Americano Brasil

Jogador do Pouso Alegre Gladiadores aproveita o futebol americano para lutar contra o lúpus

Tempo aproximado de leitura:6 minutos, 45 segundos

Mendes (dir) aproveita momento no Pouso Alegre Gladiadores para incentivar outras pessoas. Foto Arquivo pessoal/Futebol Americano Brasil

A campanha fevereiro roxo é marcada como o mês da consciência sobre lúpus, fibromialgia e mal de Alzheimer. Apesar de ser um mês curto que os demais, fevereiro é um dos meses com mais causas engajadas. O período também é dedicado à campanha fevereiro laranja, que tem como objetivo conscientizar as pessoas sobre a leucemia e a importância da doação de medula óssea. Para ampliar a causa na campanha, Christopher Melo Mendes, linebacker de 26 anos do Pouso Alegre Gladiadores, pode mostrar que o futebol americano é capaz de ajudá-lo na luta contra a lúpus. O jogador batalha contra a doença desde a adolescência.

Saiba como foi a temporada 2019 do BFA 2

Antes de desenvolver lúpus, Mendes jogava futebol na escolinha do Cruzeiro e era cotado até para seguir carreira como jogador. Não era um craque disparado, mas jogava bem e era bom com os esportes, ainda criança já havia conquistado medalhas de natação e judô.

Mendes ficou doente quando estava com 11 anos de idade. No momento que a doença foi descoberta, já estava no estado avançado. Médicos não acreditavam nos resultados dos exames de tão grave que era. Refizeram os exames e mesmo sem acreditar, isso era o que estava acontecendo com ele.

De imediato o tratamento com medicamentos foi iniciado. Mendes teve que tomar remédios fortes até os 15 anos de idade. E tudo que ele ouvia era que não podia mais jogar futebol. Ele sofria com dores no corpo, nas juntas e seus órgãos internos foram muito atacados por conta da condição de saúde. A doença ataca fígado, coração, pulmão, cérebro, por exemplo.

Em seu primeiro ano de tratamento, sua vida se resumia em consultas médicas. Ia para escola, mas só ficava em sala de aula, longe das quadras. Mesmo querendo brincar, a dor não permitia. Depois de dois anos, já com 13 anos de idade, seu quadro melhorou e ele não conseguia mais se segurar, voltou a praticar futebol na escolinha. Os médicos se convenceram que não tinha como segurar um garoto de 13 anos cheio de energia, então recomendaram uso constante de protetor solar fator máximo.

Mendes percebeu que ao voltar a praticar esportes se sentia bem melhor. Além do futebol, também retornou a natação e viu que o lúpus retraía cada vez mais. Mendes salienta que isso foi algo pessoal que ele sentiu na época, não quer dizer que para todos que tem a doença haja da mesma maneira.

Aos 15 anos, após perceber que havia melhorado sua condição de saúde, Mendes diminuiu o uso de medicamentos. Futebol e natação ainda não davam conta de toda energia que tinha. Logo começou a praticar lutas, como jiu-jitsu, muay thai e taekwondo. Aos 17 anos preferiu se dedicar somente ao MMA.

Com 19 anos parou de tomar todos os medicamentos. Para Mendes, particularmente o esporte havia dado resultado nítido sobre melhoria contra o lúpus. Foi assim até os 24 anos, sem medicamento algum, mas todos os anos fazia exames como check-up geral.

Foi nesse período, com 22 anos que Mendes iniciou no futebol americano em Ribeirão Preto, quando conheceu o Ribeirão Preto Challengers e Brodowski Alligators. Apesar de já ter praticado MMA, seus pais e médicos foram contra a prática do futebol americano por temerem lesões maiores e mais graves.

Mas a paixão pelo futebol americano fez com que se dedicasse ainda mais na academia. Fez acompanhamento com endocrinologista e personal trainer para fortalecimento muscular. Nos treinos, como ainda era iniciante, sempre tomou cuidado nos tackles, temendo lesões no início até pegar o jeito. Depois voltou para o Sul de Minas Gerais quando ingressou no programa do Pouso Alegre Gladiadores.

Quando o cenário se encaminhava para algo estável, o lado emocional fora abalado. Antes do início da temporada 2019 do Campeonato Mineiro de Futebol Americano, aconteceu o falecimento de sua irmã e o retorno das dores pelo corpo seguido da medicação constante. A doença não tem cura, ela diminui o impacto no corpo por um tempo, mas pode ficar ativa novamente.

Como a resposta ao tratamento foi rápida, então o impacto foi menor. Mendes mesmo sabendo que atividade física o ajuda no tratamento, o jogador seguiu em meio a pandemia com os treinos físicos com personal. Três meses depois já sentiu o resultado.

— O lúpus não tem história de superação, não tem ninguém que venceu. Eu pelo menos não conheci ninguém que tenha lúpus e que tenha vencido. Você não vai ver história parecida como quem venceu o câncer, que ficou curado e voltou a sua vida normal. O que mais me abalou quando recebi a notícia da doença, foi que eu não viveria mais nada. Foi desse jeito que me foi falado. Você não vai poder jogar bola, não vai poder sair no sol, você não vai poder viver. Basicamente foi isso e a impressão que eu tive foi que ficaria numa sala fechada, escura, sem poder fazer atividade física, sem poder viver. Você não vê atleta de referência ou de destaque que tenha lúpus, pois a doença afeta muito o organismo. Quando se faz uma busca sobre histórias de quem tem lúpus, você só encontra derrota, só coisa triste. Não tem ninguém feliz, sorrindo, só vê desgraça. Eu não posso dizer uma situação que o futebol americano me trouxe com relação a lúpus, mas posso dizer uma coisa que eu levo do lúpus para o futebol americano; que é através da minha história, dizer que mesmo que você tenha lúpus, é possível sim praticar esporte, que é possível viver sua vida normalmente. Não sou um jogador extraordinário, até hoje só conquistei o Gerais Bowl e o vice-campeonato da Copa Mogiana, estou há pouco tempo no esporte, não sou melhor linebacker de Minas Gerais e muito menos do Brasil, mas acredito que estou muito além do que eu tinha como expectativa de onde eu poderia chegar. Acho que comecei no esporte com desvantagem, mas hoje conseguir correr junto com todo mundo já me deixa muito feliz. Quero que as pessoas vejam que não é só derrota, que apesar de tudo, teve alguém que conseguiu — comentou Mendes.

Unidade de suporte para cuidar da saúde

No Pouso Alegre Gladiadores, foi dado início a um projeto através de três médicos do time, onde tem como principal objetivo o atendimento e acompanhamento aos atletas para não dependerem totalmente do SUS para qualquer lesão. O projeto tinha expectativa de algumas parcerias que ainda não concretizaram e no momento está paralisado. Mendes também faria parte desse projeto.

Meta de apoio à outras pessoas

Atualmente, Mendes faz parte e comenta ativamente em grupos de pessoas que tem lúpus para seguirem na luta.

— Tem pessoas no grupo que falam que estão com dores há muito tempo, uns com sete anos sofrendo com dores, outros com mais tempo, que não conseguem mais fazer nada, totalmente derrotadas. Eu tenho esperança que através da minha vida, elas saibam que podem ter esperança sim. Quero que saibam que teve alguém que ficou bem, que está bem. Se eu conseguir melhorar a vida de uma pessoa que seja, eu me sentiria realizado e feliz com isso, pois, a pior parte da lúpus não é a dor física, mas a parte de se convencer que não há perspectiva de melhora — ressaltou.

A vontade de Mendes é alcançar as pessoas que perderam a vontade de viver. Poder recuperar a perspectiva de vida dessas pessoas através de sua história é uma das motivações atuais do atleta. O jogador sabe mais do que ninguém que uma doença sem cura traz para pessoa uma falta de esperança que abala muito.

— Farei de tudo para ajudar essas pessoas. A gente não recomenda que façam atividade física como um tratamento, cada corpo funciona de um jeito, mas que pra mim isso ajudou e que deve sempre se ouvir o médico — finalizou.

Mendes seguirá firmemente na luta, sem desanimar, se dedicando ao esporte como jogador e também na posição diretiva da equipe pouso-alegrense. O apoio aos que tem lúpus também continua sem cessar.

Sobre o autor

Tiago Munden

Arquiteto urbanista. Produtor de conteúdo no Futebol Americano Brasil. Graduado pela UniNorte. Analista comercial na Nippon Steel América do Sul. Diretor de comunicação da Federação Mineira de Futebol Americano. Co-fundador do Touchdown Mineiro. Membro voluntário do Mapa do FABR e FABR Network
Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Comentários? Feedback? Siga-nos no Twitter em @fabrnoticias, no Instagram em @futebolamericanobrasil_ e curta-nos no Facebook.

Average Rating

5 Star
0%
4 Star
0%
3 Star
0%
2 Star
0%
1 Star
0%

One thought on “Jogador do Pouso Alegre Gladiadores aproveita o futebol americano para lutar contra o lúpus

  1. Que história!
    A superação, dedicação e a paixão dele pelo esporte nos motiva a lutar por aquilo que amamos.
    Parabéns ao autor desse artigo tmb.
    Sucesso

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *